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Aprendendo com a globalização: Fórum Social Mundial vai a Mumbai
3/5/2004 09:00:00

Theresa Williamson*

O 4º Fórum Social Mundial (FSM) teve início em Mumbai, Índia, no dia 16 de janeiro de 2004. Este é o meu quarto de quatro fóruns e a minha reação instantânea ao chegar foi de que este seria o mais efetivo e com maior potencial. Os debates do Fórum Social Mundial não são mais sediados apenas no Brasil, onde os governos estadual [do Rio Grande do Sul] e federal apoiaram a idéia de torná-lo realidade em 2001. O Fórum deste ano está sendo organizado por grupos com muito menos recursos e completamente sem apoio governamental, e mesmo assim tiveram êxito em obter a mesma incrível presença dos eventos passados.

Quando o 1º Fórum Social Mundial foi organizado no Brasil, em 2001, a idéia era organizar um evento paralelo ao Fórum Econômico Mundial (FEM) realizado ao mesmo tempo em Davos, na Suíça, todos os anos. O FEM reune as elites empresarias e governamentais para discutir temas atuais que promovam o crescimento econômico global. A idéia por trás do FSM era criar um espaço paralelo, nos países em desenvolvimento, onde toda e qualquer pessoa fosse bem-vinda para dialogar sobre abordagens alternativas de desenvolvimento. O tema do Fórum é que "Um outro mundo é possível". Esta é, talvez, a única coisa em comum entre todos os participantes do evento. Sejam líderes sindicais, intocáveis, tríbos indígenas, ativistas cibernéticos, organizadores comunitários, ambientalistas ou acadêmicos, todos os participantes do Fórum concordam com uma coisa: o padrão atual de crescimento econômico e desenvolvimento mundial não é sustentável nem justo e, portanto, não é desejável; abordagens alternativas precisam ser desenvolvidas e fortalecidas. Apesar de a obtenção de fundos para o evento ter sido proveniente somente de inscrições e organizações não americanas (como a Oxfam e a ActionAid), mais de 100 mil pessoas registraram-se para o evento deste ano, representando pelo menos 2.660 organizações separadas, provenientes de 132 nações.

A Comunidades Catalisadoras (ComCat) foi a este Fórum com um grupo de três (de uma equipe de cinco pessoas). Para Angelo da Silva, um líder comunitário no Rio de Janeiro que trabalha conosco dois dias por semana na formação de redes comunitárias, foi sua primeira visita a um outro país em desenvolvimento. Particularmente, esta foi sua primeira experiência com uma pobreza intrinsecamente diferente - de formas positivas e negativas - às quais ele vive na favela da Zona Norte do Rio. Para Rose Franco, responsável pelo website em português (com bases no Brasil), esta visita à Índia representa uma visita a um país que ela tem estudado por muitos anos. Ela se encanta com a dança, a música, as tradições espirituais e a filosofia da Índia. Tanto Angelo quanto Rose publicaram suas impressões sobre o Fórum, dadas suas experiências anteriores, na versão em português deste website (clique no link "Mural da ComCat" e confira). Eu já tinha estado na Índia anteriormente - em Chennai, no sul, em 1995 -, mas esta foi minha primeira viagem a trabalho. Para mim, particularmente, é fascinante a comparação entre este Fórum Social Mundial e os três realizados ao longo dos três últimos anos, em Porto Alegre, no sul do Brasil. Ver o Fórum mudar-se para uma outra cidade, num contexto totalmente diferente, facilita o esclarecimento do que é intrínseco ao Fórum, o que é flexível e o que futuros comitês organizadores em outros locais podem aprender com experiências passadas.

O Fórum como um fim em si mesmo

A melhor palavra para descrever meu encontro com o primeiro Fórum Social Mundial foi "frustração". Como uma simples observadora, senti-me frustrada por ter ido a um evento em que alternativas aos estilos atuais de desenvolvimento deveriam ter sido discutidas e, ainda assim, não estavam em lugar algum na programação. Senti-me frustrada por o evento ter sido usado principalmente para expressar frustrações, desabafar problemas e promover partidos políticos. Após visitar várias oficinas, discutindo problemas e não soluções, concluí que a melhor coisa a respeito do Fórum foi a oportunidade de contatar pessoas de diferentes organizações, fazer contatos e desenvolver minha própria filosofia política e social.

Durante o segundo Fórum Social Mundial, em 2002, trabalhei como tradutora para fundações com bases americanas e representei Comunidades Catalisadoras durante uma oficina na qual apresentei nosso trabalho, com o auxílio de amigos, para os participantes interessados. Gostei um pouco mais deste do que do primeiro, mas sai me sentindo basicamente como em 2001: não se chegou a uma conclusão sobre em que direções seguir, poucas ações práticas foram sugeridas e nenhuma solução foi compartilhada. Este Fórum, em particular, me frustrou, pois, embora sediado num país com 80% da população vivendo nas cidades, problemas urbanos foram raramente apresentados na programação. As fundações americanas para as quais dei assistência sairam da experiência com conhecimento sobre as dificuldades de povos indígenas e os sem-terra no Brasil, mas totalmente alheios às dificuldades das grandes massas vivendo na pobreza urbana.

O ano anterior, 2003, foi um novo ano. Como discuti no artigo publicado na edição de maio de 2003 da Planner's Network ["Rede de Planejamento"] (clique aqui para ler o artigo em PDF em inglês), fui ao Fórum de 2003 com um grupo de 23 líderes comunitários das favelas do Rio. Como resultado, fui capaz de ver o Fórum como um fim em si mesmo. As interações que os membros do Congesco (Conselho de Gestores Comunitários do Rio de Janeiro) puderam ter enriqueceram o seu movimento tremendamente. Subitamente tornou-se claro para mim o que o Fórum poderia fazer, ao contrário do que faz.

Em resumo, o Fórum Social Mundial é o primeiro e único evento na história unindo as camadas baixas da sociedade: tradicionalmente, os grupos desprivilegiados ou marginalizados. Ao longo da história, tem sido técnologicamente, culturalmente e monetariamente proibitivo para membros de comunidades desprivilegiadas reunirem-se em suas próprias cidades, muito menos em outros países. O lado positivo da globalização é a criação dessas oportunidades - por meio de tecnologias como a Internet, viagens de avião e tradução simultânea e pela conscientização de problemas globais por intermédio da mídia de massa - para a aproximação de comunidades. A Internet cria oportunidades para tais trocas, no campo virtual (exatamente o trabalho feito pela ComCat). O FSM é o único evento, atualmente, que proporciona essa oportunidade no campo físico.

O poder deste tipo de troca e diálogo é enorme e está apenas começando a ser compreedido. Levar o quarto Fórum Social Mundial para a Índia foi um elemento vital para a solidificação disto.

Hoje, no Fórum Social Mundial, agora que ele foi retirado do contexto brasileiro, se torna claro para mim que o Fórum é um fim em si mesmo. O chamado "Outro Mundo"e os caminhos para alcançá-lo que eu tinha procurado nos eventos anteriores está sendo criado através da dinâmica do próprio Fórum. Ou seja, uma das soluções primárias para os problemas que temos hoje - violência, desigualdade, pobreza, racismo, medo - é a integração e o contato. É através da criação de espaços nos quais aqueles que buscam melhorar sua realidade local possam contatar e comparar, contrastar e basear suas experiências. É através da criação de espaços em que pessoas de diferentes formações possam interagir e perceber que todos nós estamos no mesmo barco, compartilhando o mesmo planeta. Todos nós somos afetados por problemas semelhantes, unidos por nossos costumes e culturas e carentes da mesma estabilidade emocional. Em resumo: povos do outro lado do mundo não são mais um inimigo sem face. Na verdade, eles são como eu.

O Fórum Social Mundial deve empenhar-se para ser verdadeiro consigo

Devido ao fato de o próprio Fórum Social Mundial ser parte da solução que seus participantes estão buscando, ao reunir grupos diferentes para trocar, crescer e formar grandes redes de solidariedade, é imperativo que tais eventos sejam gradativamente verdadeiros consigo. Neste sentido, existem várias formas nas quais os fóruns brasileiros e indiano diferem-se dramaticamente e lições podem ser aprendidas com eles para eventos futuros.

Tendo sido organizado sem apoio governamental e escolhendo não aceitar auxílio de fundos com bases americanas, incluindo fundações, os organizadores do Fórum Social Mundial foram forçados a fazer muito com pouco. O Fórum foi realizado numa fábrica abandonada, numa área em que, em outros tempos, deveria ter-se parecido com uma enorme quadra não asfaltada, com apenas terra no chão e alguns prédios espalhados. Neste espaço, os organizadores do evento fizeram um milagre. Utilizando tecnologia local, tecidos de algodão cru foram costurados e espalhados, usando postes de madeira de forma a criar grandes espaços fechados - salões capazes de abrigar milhares e milhares de pessoas, salas de oficina para até cem pessoas; salas de exibição e mais. Quando o Fórum terminar, esses materiais podem ser facilmente desmontados e reutilizados. De fato, no caso da área de shows capaz de abrigar dezenas de milhares de ouvintes, nota-se que esses materiais são regularmente montados e desmontados para criar ambientes alternativos, apropriados para diferentes tipos de shows e discursos. Neste Fórum, discursos de escritores e ativistas conhecidos, capazes de atrair milhares de ouvintes, estão sendo realizados neste espaço aberto para que todos os interessados possam estar presentes (nos Fórums passados, tais eventos causariam grandes conflitos à medida que dezenas de milhares de pessoas lotassem as salas, adequadas para um número muito mais limitado).

Além de materiais naturais utilizados na montagem do evento, todos os produtos sendo vendidos no local eram naturais, bem como os recipientes nos quais eram comercializados. O artesanato feito por cooperativas era colocado em sacolas de jornal reutlizadas, as refeições eram servidas em pratos feitos de folhas compactadas, o café em xícaras de argila, e assim por diante. Independentemente de estas decisões terem sido tomadas por razões ambientais ou não, elas fazem sentido para um evento que tenta desenvolver visões alternativas sustentáveis para o futuro.

Este Fórum na Índia também chamou uma maior atenção para a importância de envolver comunidades desprivilegiadas. Nos fóruns anteriores, estavam presentes muito poucos representantes de comunidades de baixa renda ou outros tipos de comunidades tradicionalmente negligenciadas. Na Índia, eles eram a maioria, conduzindo marchas e apresentações culturais continuamente por todo o Fórum. Esta diferença aparentemente já desencadeou discussões entre os organizadores do evento para considerar a criação de auxílios e garantir a presença de tais grupos em futuros fóruns.

Finalmente, a falta de recursos fez deste o primeiro Fórum incapaz de pagar intérpretes profissionais. Uma vez que isso aconteceu em um país com aproximadamente 300 idiomas e dialetos, pode-se argumentar que a tradução era de crítica importância, particularmente no evento deste ano. Mas os organizadores do evento simplesmente não puderam pagar o preço de intérpretes profissionais. Este ano não houve realmente assistência de tradução, particularmente nas menores oficinas do evento. Um observador chamou o evento de "Fórum Visual Mundial", uma vez que foi a única forma que ele pôde absorver a maioria da informação ao seu redor. No entanto, para grandes conferências, o Fórum foi capaz de lidar com a falta de tradução paga de maneira eficiente, contando com aproximadamente 150 "Babels", ou intérpretes voluntários de alta qualidade. A instituição de Babel teve início no Fórum Social Europeu anterior e agora vem se expandindo. Já existem mais "Babels" registrados do que o necessário para cobrir um evento do FSM. A limitação é no apoio com passagens áereas e despesas locais durante esses eventos. Mas para futuros eventos no Brasil, a confiança nos "Babels" de qualidade profissional ao invés de interpretação paga será de grande valia, tanto na redução do custo com assistência de tradução quanto no aumento das chances de que todos os participantes dos eventos do Fórum possam estar presentes devido a sua preocupação com o mundo ao seu redor.

No entanto, os Fóruns brasileiros passados oferecem uma vantagem alternativa. No estado do Rio Grande do Sul, onde os três primeiros Fóruns foram realizados, tanto a prefeitura de Porto Alegre quanto o governo estadual apoiaram e nutriram o evento. O evento foi realizado num local que pode ser visto como uma região modelo do mundo em desenvolvimento, onde uma forma de democracia avançada prevalece (Porto Alegre foi a primeira cidade no Brasil a instituir o 'orçamento participatório', uma forma de audiência municipal onde cidadãos decidem aonde somas significativas dos fundos municipais são gastas, através de um processo detalhado de compartilhamento de informações e votações). Neste contexto, o FSM nos anos anteriores teve completo apoio e reconhecimento de autoridades locais, estaduais e residentes locais. Os visitantes têm a sensação de que toda Porto Alegre tem conhecimento do Fórum e que a cidade empenha-se para que o evento seja realizado com sucesso - desde motoristas de táxi a atendentes de hotel, vendedores e escritórios municipais. Em Mumbai, a sensação foi muito mais a oposta, com participantes do Fórum do Tibet e do Brasil sendo empurrados pela polícia por terem entrado no vagão de trem errado, motoristas de táxi cobrando duas vezes mais o valor normal para visitantes inocentes, e assim por diante. Pode-se argumentar que o Fórum em Mumbai coloca os participantes no centro do mundo que estamos tentando mudar e que realizando tal evento em Porto Alegre acentuam-se as soluções que estamos buscando. Alternar o FSM entre tais locais no mundo em desenvolvimento pode ser uma estratégia inteligente para manter o evento exposto ao contínuo de realidades que uma sociedade pode escolher.

Uma outra vantagem de Porto Alegre como sede do evento é a disponibilidade de infra-estrutura básica. A falta de banheiros modernos e a falta ocasional de energia foram as duas reclamações manifestadas neste evento em Mumbai. A falta de energia, em particular, limitou a capacidade da imprensa de fazer seu trabalho e a capacidade dos "Babels" de fazerem o deles. Os visitantes também consideraram que a falta de acesso à Internet foi um ponto negativo importante no planejamento do evento, uma vez que apenas a imprensa teve acesso aos 120 computadores (aproximadamente 2.700 jornalistas se inscreveram durante o evento). Uma sugestão para o futuro: 100 computadores com acesso à Internet poderiam ser disponibilizados a todos os participantes e um ponto hotspot de Internet sem fio poderia ser instalado no local para membros da imprensa que, na maioria, podem trazer seus próprios computadores e periféricos.

Partidos políticos e o "neoliberalismo"

A única modificação fundamental que eu faria no atual modelo do Fórum Social Mundial, que talvez seja não realista, dado o histórico do evento (nada pode ser perfeito) e como ele veio a ser o que é, dependendo do Partido dos Trabalhadores no Brasil e do Partido Comunitário na Índia, seria sugerir que o Fórum se mova para uma instância estritamente não partidária. A forte presença de partidos políticos nos eventos brasileiros e indiano tem, em minha opinião, comprometido o valor final de tais eventos e tirado a atenção da imprensa de temas unificadores. Diferente de outros movimentos - como aqueles a favor da segurança econômica para as comunidades Dalit ("intocáveis") na Índia, da preservação ambiental e salários suportáveis - partidos políticos são, por natureza, partidários. Eles separam, mais do que unem. É improvável a existência de um membro pertencente a vários partidos políticos. Por outro lado, os movimentos representados no FSM não são mutualmente exclusivos.

Não estou sugerindo que membros de partidos políticos não devam ser representados. Pelo contrário, o processo atual pelo qual certos partidos políticos podem participar enquanto outros são excluídos leva a um apoio implícito destes partidos pelos participantes do Fórum, que podem ou não representar seus pontos de vista. A forte e visível presença de partidos políticos em tais eventos deve ser repensada para que eles participem de uma forma menos divisiva.

Em minha opinião, o que acontece é que – devido, em parte, à forte presença de partidos – a imprensa diminui a importância do FSM, rotulando-o de "antiglobalização", "combatendo o neoliberalismo" e dai por diante. Se os organizadores do Fórum conseguirem ir além desses termos, em direção a um diálogo mais construtivo, que busque resolver os problemas atuais com soluções conhecidas – existem soluções ambiental e socialmente responsáveis para todos os desafios mundiais já nas mãos da humanidade. Aí então haverá uma maior aceitação. A imprensa dominante não verá o Fórum de uma perspectiva negativa. E o Fórum Social Mundial será mais verdadeiro consigo: cuidar de seres humanos, independentemente de suas posições políticas e crenças, deveria ser parte do outro mundo que estamos tentando transformar de uma mera possibilidade para a realidade.

* Theresa Williamson é diretora executiva de Comunidades Catalisadoras (artigo traduzido pela voluntária Cristina Oishi Gridi-Papp)

[Para ver todas as fotos tiradas pelas Comunidades Catalisadores durante o IV FSM, clique aqui e aguarde a apresentação de slides]


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